A busca incessante pelo descanso perfeito, apelidada nas redes sociais de "sleepmaxxing", está gerando um efeito reverso na saúde pública. O que deveria ser um processo biológico natural transformou-se em uma métrica de desempenho, levando ao surgimento da ortossônia: a obsessão clínica por alcançar dados ideais de sono.

Especialistas ouvidos pela BBC alertam que a dependência de dispositivos como relógios inteligentes e anéis de monitoramento está criando uma geração de pacientes ansiosos. Muitos chegam aos consultórios médicos convencidos de que possuem distúrbios graves, baseando-se apenas em relatórios de aplicativos, mesmo quando exames clínicos não apontam irregularidades.

O conceito de "pontuação do sono", amplamente difundido por marcas como Fitbit, Apple, Garmin e Oura, é alvo de duras críticas da comunidade médica. Alanna Hare, consultora de medicina do sono do Royal Brompton Hospital, em Londres, é categórica ao afirmar que tais índices são "completamente inventados" pelos fabricantes e carecem de base na ciência do sono.

Recentemente, a empresa Oura tornou-se alvo de uma ação judicial em San Francisco (EUA). O processo alega que os sensores dos anéis não conseguem medir com precisão os estágios do sono, utilizando estimativas de inteligência artificial que teriam a eficácia comparável à de um sorteio de "cara ou coroa". Em resposta, a companhia afirmou manter a confiança em sua precisão científica e na forma como comunica esses dados aos usuários.

O impacto psicológico dessas métricas é real e mensurável. Um estudo da Universidade de Oxford demonstrou que a percepção de fadiga está diretamente ligada ao que o dispositivo informa, e não necessariamente à qualidade real do descanso. No experimento, participantes que receberam notas baixas de sono — geradas aleatoriamente pelos pesquisadores — relataram maior cansaço e pior desempenho em testes de concentração no dia seguinte, mesmo que tivessem dormido bem.

A britânica Jess Hill, profissional de RH de 32 anos, viveu essa experiência na prática. Durante três anos, ela tratou os dados de seu relógio como uma verdade absoluta, moldando seu humor diário a partir da tela do aparelho. A ficha caiu quando, após passar quatro horas acordada durante a madrugada, o dispositivo registrou que ela havia tido uma "ótima noite de sono".

Para Neil Stanley, autor do livro "Como Dormir Bem", o problema reside na tentativa de transformar o sono em um jogo com metas numéricas. Ele explica que a maioria dos rastreadores comerciais baseia-se na actigrafia (monitoramento de movimentos), uma tecnologia limitada. Segundo Stanley, para uma medição real do sono, é indispensável monitorar a atividade cerebral, algo que dispositivos de pulso ou anéis não fazem com precisão. O especialista defende que o foco excessivo nos números acaba sendo o principal combustível para novos distúrbios de insônia.