Se houvesse um detector de fumaça instalado no teto da Praça dos Três Poderes, a Esplanada já estaria submersa em espuma química há pelo menos duas semanas. Brasília não apenas está pegando fogo; a capital transformou-se no cenário perfeito de um melodrama épico, onde a linha que separa a alta corte judicial de um roteiro de comédia dramática deixou de existir.
Nas últimas semanas, o Supremo Tribunal Federal entregou um verdadeiro espetáculo de chapa quente: guerra de liminares cruzadas, disputas de bastidores que vazam a conta-gotas, acusações de condutas cruzadas e o racha visível entre alas que até outro dia fingiam harmonia institucional perfeita. A rotina dos onze ministros mais parecia um jogo de xadrez disputado com dinamite. Quem piscasse perdia a anulação da decisão do colega da mesa ao lado.
Para os apocalípticos de plantão, o diagnóstico imediato é o colapso das instituições. Mas olhemos com um pouco mais de malícia e lucidez. O que estamos presenciando não é o fim do mundo, mas o fim da hipocrisia de carpete aveludado.
Por décadas, Brasília operou sob a mística do sigilo impenetrável e dos acordos de cavalheiros selados no café da tarde. Bastava vestir uma toga pesada ou discursar em latim para que as gavetas ficassem convenientemente trancadas. Agora, no entanto, o calor da fogueira política e das disputas internas quebrou os cadeados. Relatórios sobem, nomes vêm à tona, conversas transbordam para os jornais e o corporativismo institucional começa a rachar sob a pressão da opinião pública.
A sabedoria popular nunca errou: “não se faz omelete sem quebrar os ovos”
Ver a Suprema Corte sob questionamento feroz pode soar desconfortável, mas é exatamente o remédio amargo de que a República precisa. Nenhuma instituição amadurece na redoma de vidro.
A única maneira de combater desmandos, conflitos de interesse e desvios de conduta é expondo as vísceras do sistema à luz do sol. É barulhento, é caótico e assusta quem prefere a paz artificial do silêncio cúmplice. Contudo, abrir as caixas-pretas e exigir transparência — mesmo que à base de faíscas e disputas intestinas — é o primeiro passo para resgatar a credibilidade que a própria corte desgastou ao longo dos anos.
Queimem as vaidades, quebrem-se as cascas. Se a fumaça de Brasília nos deixar ver com clareza o que antes se escondia nas sombras, esse incêndio terá sido, no fim das contas, a melhor faxina que o país já viu.
