O clima nos bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF) atingiu um nível de tensão raramente visto, alimentado por uma crise de desconfiança mútua entre os magistrados. Às vésperas da sessão que definirá a abertura de um inquérito sobre as relações do ministro Alexandre de Moraes com o empresário Daniel Vorcaro, o temor de espionagem interna domina as conversas nos corredores da Corte.
Segundo apuração com três integrantes do tribunal e interlocutores próximos, existe um medo latente de que a Polícia Federal, sob a gestão de Andrei Rodrigues, tenha produzido relatórios de inteligência contra os próprios ministros, seguindo o molde do que foi utilizado por Moraes para atacar André Mendonça. Pelo menos três magistrados, além do próprio Mendonça, suspeitam ter sido alvos de monitoramento da corporação.
A preocupação central recai sobre o papel do diretor-geral da PF. Ministros especulam se Rodrigues teria tido acesso a documentos sensíveis e se essas informações teriam sido compartilhadas de forma privilegiada com Alexandre de Moraes. O sentimento relatado é de insegurança, com magistrados temendo represálias ou o uso de informações de inteligência caso contrariem interesses específicos dentro da estrutura de poder atual.
Esse ambiente hostil explica, em parte, o movimento recente do ministro Gilmar Mendes, que sugeriu a retirada de delegados da PF que atuam dentro dos gabinetes do STF. Embora Gilmar pareça mais cauteloso em relação aos passos de André Mendonça do que propriamente com a aliança entre Rodrigues e Moraes, a medida sinaliza uma tentativa de blindagem da Corte contra o braço armado do Estado.
O epicentro do conflito reside em relatórios apócrifos que acusam Mendonça de abuso de autoridade e direcionamento político. Tais documentos, que não possuem valor de prova legal, alegam que o ministro teria demonstrado interesse incomum em investigações envolvendo o banco Master e figuras políticas como ACM Neto e Davi Alcolumbre. Os textos sugerem até uma motivação política ligada à sucessão no STF e às alianças firmadas no Senado entre Moraes, Alcolumbre e o senador Flávio Bolsonaro.
Foi justamente a existência desses relatórios que fundamentou a decisão anterior de Mendonça de afastar o diretor-geral da PF — medida que foi revertida pelo ministro Edson Fachin nesta quarta-feira. Fachin, no entanto, deu um prazo de 48 horas para que Andrei Rodrigues explique como documentos que deveriam ser confidenciais foram parar nas mãos de Alexandre de Moraes.
O desfecho dessa crise institucional permanece incerto, mas o dano à coesão do tribunal é evidente. A desconfiança de que a Polícia Federal possa estar sendo usada como ferramenta de pressão política dentro da mais alta instância do Judiciário brasileiro coloca sob suspeita a imparcialidade das instituições e a própria segurança jurídica do país.
