A inteligência artificial avançou sobre o cotidiano das empresas brasileiras com uma velocidade superior à capacidade de gestão das lideranças. Segundo um levantamento realizado pela SAP em parceria com a Oxford Economics, 82% das organizações no Brasil convivem com o uso de ferramentas de IA por parte de seus colaboradores sem qualquer tipo de supervisão ou aval formal. O estudo consultou 2.600 líderes em 13 países, incluindo 200 nomes do mercado nacional.

Essa prática, apelidada de 'shadow AI', traz consigo riscos estruturais. Embora a IA já esteja presente em 26% das tarefas realizadas nas companhias consultadas, apenas 18% delas operam a tecnologia de maneira integrada aos seus sistemas oficiais. O modelo predominante, adotado por 48% das empresas, ainda se baseia em iniciativas isoladas, o que limita o retorno real sobre o investimento e a eficiência global da operação.

Para Juliana Velozo, vice-presidente sênior da Thoughtworks para a América Latina, a falta de um redesenho nos processos de trabalho faz com que o ganho individual de um funcionário não se converta em produtividade para a organização. Em vez de eliminar gargalos, a automação pontual apenas os desloca. 'Se alguém acelera sua parte do trabalho, mas a etapa seguinte permanece lenta, o fluxo total não melhora. Apenas transferimos o problema de lugar', explica a executiva.

Outro ponto crítico levantado pelo setor privado é a perda de capital intelectual e os riscos de segurança. Quando um colaborador cria comandos (prompts) e automações em contas pessoais, esse conhecimento deixa a empresa caso ele peça demissão. Além disso, a fragilidade na governança já gera consequências reais: 43% das empresas brasileiras ouvidas admitiram ter sofrido vazamento de dados ou de propriedade intelectual devido ao uso inadequado dessas ferramentas.

A análise do cenário aponta que existe um vácuo entre a diretoria, que cobra inovação, e a execução prática no dia a dia. A falta de letramento tecnológico faz com que áreas de TI e de negócios não falem a mesma língua. Enquanto o setor técnico foca em infraestrutura, as áreas comerciais dominam o processo, mas carecem de visão sobre os riscos de compliance e segurança.

A maturidade corporativa, portanto, exige que as empresas abandonem a experimentação desordenada em favor de um ambiente centralizado e controlado. Atualmente, apenas 15% das empresas no Brasil se sentem plenamente preparadas para governar a IA, e metade delas sequer possui um registro formal dos sistemas em uso. A conclusão é clara: a produtividade sistêmica depende de uma gestão centralizada que valorize a hierarquia de processos e a segurança da informação, transformando o esforço individual em um ativo real para a companhia.