O mercado jurídico dos Estados Unidos, conhecido por sua solidez e tradição, atravessa uma fase de modernização acelerada com a adoção da Inteligência Artificial (IA). O que antes era visto como uma ameaça à profissão, tornou-se uma ferramenta de produtividade celebrada por grandes bancas. No entanto, essa eficiência inédita trouxe um impasse de livre mercado: a pressão dos clientes por uma redução drástica nos honorários.
Escritórios renomados como Sullivan & Cromwell, Cooley e Ropes & Gray já operam sistemas próprios de IA para revisar contratos complexos, elaborar documentos para ofertas públicas (S-1) e realizar auditorias (due diligence) em questão de horas, tarefas que anteriormente consumiam semanas de trabalho humano. A inovação é fruto de investimentos pesados em tecnologia e da colaboração com gigantes como OpenAI, Google e Anthropic.
O conflito surge na forma de cobrança. Historicamente pautado por horas faturáveis, o setor agora é questionado por empresas que não aceitam mais pagar por tempo que a tecnologia encurtou. Neill Jakobe, vice-presidente da Ropes & Gray, relata que os clientes já percebem o ganho de agilidade e, naturalmente, indagam sobre o reflexo financeiro desse avanço. Algumas corporações chegam a utilizar seus próprios agentes de IA para auditar faturas e identificar trechos onde a automação deveria ter reduzido custos, exigindo descontos que variam de 20% a 30%.
Diante da pressão, os escritórios argumentam que a IA não substitui o intelecto jurídico. Para os sócios, a tecnologia altera a natureza do trabalho, eliminando o braçal e permitindo um foco maior em análises estratégicas e julgamentos complexos, que possuem alto valor agregado. Além disso, a manutenção e o desenvolvimento desses sistemas robustos exigem capital considerável.
Contudo, a concorrência de novas empresas 'nativas de IA' — firmas jurídicas tecnológicas que já nascem com modelos de preço fixo — impõe um desafio competitivo. A Norm AI, por exemplo, captou US$ 260 milhões recentemente, atraindo grandes nomes do setor financeiro. Essa movimentação sinaliza que, embora as horas faturáveis ainda predominem em litígios de alta complexidade e consultoria estratégica, o trabalho repetitivo caminha para um modelo de precificação por projeto.
A mudança no modelo de negócios parece inevitável no longo prazo. Uma pesquisa do Citi apontou que 65% dos grandes escritórios esperam alterar seus métodos de cobrança até 2035 devido à IA. Por enquanto, a transição é gradual e cautelosa. Os líderes do setor buscam um equilíbrio entre abraçar a modernidade tecnológica e preservar a rentabilidade de um serviço que continua dependendo, essencialmente, da expertise e do julgamento humano.
