A Bienal do Livro de São Paulo de 2024 tornou-se palco de uma intensa controvérsia que acendeu o sinal de alerta entre famílias e setores mais conservadores da sociedade. O motivo é a onipresença da chamada literatura erótica e do subgênero "dark romance", que mistura sensualidade com elementos de violência, atraindo um público majoritariamente jovem para cenas que beiram o explícito em um ambiente teoricamente voltado para todas as idades.
A polêmica ganhou força nas redes sociais após a circulação de vídeos gravados no estande da editora Fruto Proibido. Nas imagens, homens usando a máscara do personagem Ghostface (da franquia de terror "Pânico") interagiam de forma sexualizada com visitantes, chegando a segurar mulheres no colo e simular enforcamentos.
O episódio expôs a fragilidade do controle de acesso em um evento que recebe milhares de crianças e adolescentes. Embora editoras especializadas em conteúdo adulto, como a The Gift Box e a Unicorn Books, afirmem manter restrições rigorosas — como segurança na porta, lacre nos livros e proibição de venda para menores de 14 ou 18 anos —, a mistura de públicos nos corredores do Distrito Anhembi é evidente. Na última segunda-feira (7), por exemplo, autoras de livros eróticos debateram suas obras no palco principal logo após atrações infantis, enquanto crianças ainda aguardavam na fila de autógrafos nas proximidades.
Para Pedro Gonçalves, editor da Unicorn Books, a falta de limites em certas interações prejudica o setor. Segundo ele, episódios como o da Fruto Proibido acabam por "generalizar" o mercado de romances adultos, motivando reações justificáveis de grupos que defendem a preservação dos valores familiares e a proteção da infância. Cátia Mourão, da Ler Editorial, também demonstrou preocupação com a confusão entre literatura e pornografia, defendendo uma separação mais clara entre os gêneros.
A Bienal, que se promove como um espaço para "fãs de literatura de todas as idades", notificou a editora envolvida no escândalo dos mascarados, afirmando em nota que não compactua com condutas inadequadas. Entretanto, a estratégia de marketing de diversas editoras tem apostado justamente no apelo visual e físico: modelos internacionais, conhecidos como "avatares" de personagens literários, são trazidos ao Brasil para posar com fãs, muitas vezes em situações de forte apelo sensual que desafiam os limites do que seria apropriado para um evento literário aberto ao público geral.
