O setor de serviços, motor que sustenta cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, iniciou o segundo semestre dando sinais claros de exaustão. Segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgados pelo IBGE, o volume do setor ficou estagnado (0%) em julho na comparação com junho. O resultado frustrou as expectativas do mercado, que previa uma leve alta de 0,2%, e acendeu o alerta sobre a perda de fôlego da economia sob o atual cenário macroeconômico.
Embora o acumulado em 12 meses ainda apresente uma expansão de 2,4%, este é o menor patamar registrado desde setembro de 2024. Economistas apontam que o setor está "andando de lado" e que a dificuldade de novos avanços decorre de um ambiente de negócios pressionado por juros reais elevados, endividamento das famílias e um mercado de trabalho que começa a dar sinais de resfriamento.
“O dado reforça que o processo de desaceleração permanece. A alta acumulada em 12 meses é a menor em quase um ano”, avalia André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica. Ele pondera que, embora o setor esteja próximo de seu topo histórico, a ausência de novos impulsos é evidente. A projeção da consultoria para o fechamento de 2026 é de um crescimento modesto de 1,5%, uma queda significativa frente aos 2,9% registrados anteriormente.
A análise detalhada mostra que o desempenho de julho foi puxado para baixo pelo segmento de informação e comunicação, que recuou 2,5%. Este grupo vinha sendo o principal pilar de sustentação do indicador, e sua retração aponta para uma correção de rota. Por outro lado, o setor de transportes teve um respiro com alta de 1,7%, embora ainda acumule uma perda severa de 24% na comparação interanual.
Para analistas do mercado financeiro, a estabilidade reflete a complexidade do momento. De um lado, estímulos fiscais e gastos públicos tentam manter a demanda aquecida; de outro, a realidade de uma inflação persistente e a necessidade de juros restritivos freiam investimentos estruturais. O economista Alexandre Maluf, da XP, destaca que, embora o consumo das famílias ainda se mostre resiliente em setores como alimentação, a preocupação com o endividamento crescente é uma sombra que paira sobre a sustentabilidade desse consumo no médio prazo.
Stefano Pacini, economista do FGV Ibre, observa que o resultado de julho é marcado por uma "compensação" entre subidas e descidas pontuais, sem uma tendência de alta real. A incerteza política e as dúvidas sobre a gestão das contas públicas contribuem para um cenário de cautela, onde a desaceleração gradual parece ser o caminho inevitável diante da falta de reformas que estimulem a produtividade real em vez do consumo baseado em estímulos temporários.
