Um novo levantamento técnico coordenado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), órgão consultivo das Nações Unidas, acendeu um sinal de alerta sobre a saúde dos oceanos. Segundo o estudo, até 96% dos recifes de coral de águas rasas podem enfrentar um colapso estrutural até o ano de 2075. O diagnóstico aponta o aquecimento global como o principal vetor dessa fragilidade, que ameaça um ecossistema responsável por abrigar 25% da biodiversidade marinha e sustentar economias locais.
Atualmente, a situação já é delicada: 24% das áreas monitoradas em 80 países estão classificadas como em risco crítico. Contudo, ao projetar um cenário de aquecimento de 2,7 °C até o fim do século — índice alinhado às atuais metas climáticas globais —, a vulnerabilidade se expande para quase a totalidade dos recifes. O conceito de colapso, neste contexto, refere-se à perda quase total dos corais vivos que sustentam a estrutura física desses ambientes.
Os pesquisadores analisaram 127 regiões distintas. Em locais como o oeste das Ilhas Galápagos, o colapso já é uma realidade documentada. A preocupação central reside no fato de que esses ambientes não são apenas belezas naturais, mas ativos econômicos estratégicos. Eles funcionam como barreiras de proteção para o litoral e são a base de cadeias produtivas de pesca e turismo, impactando a subsistência de milhões de indivíduos em nações costeiras.
"O risco é real e muito preocupante. Podemos perder um dos ecossistemas mais valiosos que temos, e os impactos disso afetarão milhões de pessoas em todo o mundo", destacou Mishal Gudka, coordenador científico da avaliação e diretor da Cordio África Oriental.
A deterioração dos corais é acelerada pelo fenômeno do branqueamento, causado por ondas de calor marinhas que expulsam algas simbióticas essenciais para a sobrevivência do coral. Entre 2023 e 2025, o mundo registrou o evento de branqueamento mais abrangente da história. Na Austrália, a icônica Grande Barreira de Corais também está sob vigilância rigorosa; todas as suas 17 sub-regiões foram reclassificadas para risco crítico nas projeções futuras.
Especialistas, no entanto, ponderam que o cenário catastrófico não é uma sentença definitiva. O relatório sugere que a sobrevivência dos recifes depende de uma abordagem pragmática: a transição energética global aliada a políticas locais de conservação robustas. A diretora-geral da IUCN, Grethel Aguilar, reforçou que o foco deve estar no fortalecimento da resiliência das comunidades costeiras e no cumprimento de metas de emissões mais realistas e eficazes.
"Ainda não é tarde demais para dar aos recifes de coral uma chance de recuperação, mas isso exige ações decisivas para enfrentar as mudanças climáticas e interromper o aquecimento dos oceanos", afirmou Aguilar.
A conservação desses ecossistemas é vista por analistas como uma questão de soberania alimentar e segurança econômica para países em desenvolvimento, que dependem diretamente da saúde dos mares para manter seu equilíbrio social e financeiro nas próximas décadas.
