O Supremo Tribunal Federal (STF) vive um de seus momentos mais críticos com a abertura de um confronto direto e formal entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. O que começou com a revelação de mensagens entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro evoluiu, nesta quinta-feira (3), para uma ofensiva jurídica: Moraes acionou o presidente da Corte, Edson Fachin, acusando Mendonça de utilizar seu cargo para favorecer interesses políticos e perseguir adversários.
A peça enviada por Moraes no âmbito do Inquérito 4.781 (Fake News) sugere que Mendonça teria cometido, em tese, crimes de abuso de autoridade, responsabilidade e improbidade administrativa. O texto alega que o colega agiu com parcialidade ao relatar casos envolvendo o INSS e o Banco Master, além de acusá-lo de manipular investigações para atingir tanto Moraes quanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Diante da gravidade das acusações mútuas, o ministro Edson Fachin agiu prontamente. Ele determinou a abertura de um procedimento específico e estabeleceu um prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem suas manifestações por escrito.
O Palácio do Planalto rompeu o silêncio sobre a crise institucional. Em vídeo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou liderança da cúpula do Judiciário e da PGR para assegurar a integridade das investigações. > "Diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem com um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações", declarou o petista.
A reação da oposição foi imediata e agressiva. O senador Flávio Bolsonaro (PL) atacou Moraes nas redes sociais, tentando vinculá-lo politicamente ao presidente Lula e sugerindo a existência de um complô contra si. Já o senador Rogério Marinho (PL-RN) classificou a atitude de Moraes como uma "inversão de valores", acusando-o de usar o inquérito das fake news como "instrumento de poder pessoal" para intimidar quem o investiga.
No Congresso, o tom subiu ainda mais. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) chamou o ministro de "Nero brasileiro" e convocou a população às ruas para exigir sua saída. Na Câmara, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou a sugerir que Mendonça deveria dar voz de prisão a Moraes durante a sessão do plenário.
Enquanto isso, Davi Alcolumbre criticou o que chamou de "vazamentos seletivos" e rebateu as pressões por impeachment. O senador lembrou que o próprio Flávio Bolsonaro teria negociado R$ 130 milhões com Vorcaro para o financiamento de um filme, apontando uma suposta incoerência nas críticas da oposição. No campo governista, o presidente do PT, Edinho Silva, reforçou que "ninguém está acima da lei", incluindo integrantes da magistratura.
A crise coloca o STF em uma posição de extrema vulnerabilidade, com dois de seus membros trocando acusações de crimes graves, enquanto o mundo político se divide entre o apoio à limpeza institucional e o aproveitamento do caos para fustigar a Suprema Corte.

