O envelhecimento da população brasileira trouxe um efeito colateral preocupante para a produtividade nacional: o aumento do tempo de vida acompanhado por enfermidades. De acordo com um levantamento exclusivo realizado pela empresa de benefícios VR, fundamentado na análise de 309 mil atestados médicos, as doenças crônicas triplicam a pressão sobre o mercado de trabalho, exigindo afastamentos médios de 13,7 dias — quase o dobro dos 7,1 dias verificados em patologias agudas ou acidentes ocupacionais.
Os dados, que compreendem o intervalo entre julho de 2025 e julho de 2026, revelam um cenário de alerta para a gestão privada. Entre os 1,3 milhão de colaboradores monitorados, cerca de 154 mil precisaram se ausentar de seus postos, gerando um total acumulado de 2,2 milhões de dias de inatividade. Embora as condições crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas de saúde mental, representem apenas 6% do volume total de atestados, elas são responsáveis por 12% da soma de dias perdidos, evidenciando o alto custo dessas patologias para a eficiência das empresas.
Este fenômeno está diretamente ligado à mudança demográfica do país. Dados do IBGE indicam que a expectativa de vida saltou de 45,5 anos na década de 1940 para 76,6 anos em 2024. Contudo, a qualidade desse tempo adicional é questionável. Um estudo da revista científica The Lancet aponta que o brasileiro passa, em média, 12,5 anos da vida lidando com problemas de saúde, um aumento significativo em relação aos 10,4 anos registrados em 1990.
O levantamento da VR traz ainda um recorte de gênero e classe social. As mulheres detêm 65% dos afastamentos por doenças crônicas, ainda que no cômputo geral de doenças a divisão entre sexos seja equilibrada. O impacto atinge majoritariamente a força de trabalho jovem e de meia-idade: 59% dos afastamentos prolongados ocorrem na faixa entre 25 e 44 anos. No aspecto socioeconômico, as classes B e C concentram 91% das ausências por condições crônicas.
"O brasileiro está permanecendo mais tempo no mercado de trabalho. Para ter qualidade, a saúde precisa integrar a gestão do dia a dia, da mesma forma que metas e resultados", afirma Willian Gil, diretor executivo da VR.
Para o setor produtivo, o desafio reside em adaptar a gestão de pessoas a uma realidade onde a longevidade exige acompanhamento médico constante. A tendência sugere que, para manter a sustentabilidade dos negócios e a saúde fiscal das companhias, o ambiente corporativo precisará de estratégias mais robustas de prevenção e flexibilidade, garantindo que o colaborador consiga tratar condições de longo prazo sem comprometer totalmente a continuidade das operações.
