A apenas duas semanas das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu a mais uma promessa de forte apelo popular, mas de viabilidade financeira altamente questionável. Durante o lançamento de um programa voltado à alimentação saudável, o petista anunciou a intenção de incluir medicamentos análogos ao GLP-1 — as populares e caras "canetas emagrecedoras" — na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Sem apresentar um cronograma palpável, metas de transição ou qualquer fonte de financiamento para sustentar o novo gasto, o discurso presidencial foi recebido por analistas políticos e economistas como uma clara manobra eleitoreira para tentar angariar votos de última hora.

"O governo vai colocar esse remédio à disposição no SUS porque a obesidade é uma doença que a gente tem que cuidar", declarou Lula, em uma fala que ignora deliberadamente a grave crise fiscal que o país atravessa. O anúncio atropela os critérios técnicos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão consultivo do Ministério da Saúde que avalia o real custo-benefício de novos tratamentos. Projeções da própria comissão apontam que a oferta de fármacos como a liraglutida ou a semaglutida representaria um impacto brutal de cerca de R$ 7 bilhões aos cofres públicos em um período de cinco anos.

Especialistas em gestão pública e finanças alertam que o Palácio do Planalto repete um velho vício de governos populistas: lançar promessas bombásticas e sem lastro orçamentário em períodos de véspera de votação, jogando a conta para o pagador de impostos. Atualmente, o orçamento federal já se encontra sob severa pressão, com cortes em áreas essenciais para cumprir metas fiscais capengas. Embora o Ministério da Saúde alegue monitorar a futura expiração de patentes para a entrada de genéricos mais baratos, o fato é que a distribuição universal desses medicamentos de alto custo é completamente inviável no curto prazo.

Historicamente, o tratamento da obesidade no SUS é estruturado em equipes multidisciplinares, reeducação alimentar e, em casos de extrema gravidade, na cirurgia bariátrica. A introdução súbita de tratamentos estéticos e de controle de peso via canetas injetáveis subverte as prioridades de uma rede pública que já sofre com a falta de insumos básicos, filas crônicas para exames e hospitais sucateados. Ao priorizar a narrativa política e o ganho eleitoral imediato em detrimento da responsabilidade orçamentária, a gestão atual transforma uma demanda de saúde complexa em pura propaganda de palanque, deixando dúvidas se a promessa sairá do papel ou se será arquivada logo após a apuração das urnas.