Um episódio inusitado ocorrido na Ilha Grande, litoral fluminense, acendeu o alerta de pesquisadores e autoridades de saúde. Um homem de 33 anos foi vítima de um ataque de morcego-vampiro enquanto estava na Praia do Mangue, em Angra dos Reis. O caso, registrado originalmente em março de 2024, tornou-se objeto de um estudo detalhado conduzido por especialistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado recentemente na plataforma científica SciELO.

De acordo com o relato acadêmico, a vítima não percebeu o momento da mordida, notando o ocorrido apenas ao avistar manchas de sangue no chão. O animal, um morcego hematófago, provocou uma lesão em um dos dedos do pé do homem para realizar a espoliação sanguínea. Embora o morador não tenha visualizado o espécime, o padrão do ferimento e relatos de testemunhas locais confirmaram a ação do mamífero voador.

Após o incidente, o cidadão buscou assistência médica imediata, passando por um posto de saúde local antes de ser transferido para o continente. Ele recebeu o protocolo completo de profilaxia antirrábica, medida fundamental diante do risco de transmissão do vírus da raiva, doença que possui altíssima letalidade e exige intervenção rápida do Estado na proteção do indivíduo.

O fenômeno é considerado raro pela ciência. Das quase 1.500 espécies de morcegos existentes, apenas três possuem dieta exclusivamente baseada em sangue. Embora tradicionalmente associadas ao ataque de aves e outros mamíferos não humanos, evidências recentes mostram que a degradação ambiental e desequilíbrios ecológicos podem empurrar esses animais para áreas habitadas, transformando seres humanos em fontes alternativas de alimento.

A Ilha Grande é reconhecida pela sua vasta biodiversidade, abrigando 37 espécies diferentes de morcegos. Registros anteriores, datados de 2015 e 2017, já haviam apontado ataques a cães e galinhas na Vila Dois Rios. A presença desses animais em áreas de circulação humana exige uma vigilância sanitária constante e rigorosa por parte dos órgãos públicos.

Em resposta ao caso, uma expedição científica foi montada em abril de 2024 para capturar e analisar morcegos na região. Um dos exemplares hematófagos capturados foi submetido a exames laboratoriais no Instituto Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, no Rio de Janeiro, para detecção do vírus da raiva.

Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária revelam que, entre 2014 e 2023, o estado do Rio de Janeiro registrou 174 casos de raiva animal, incidindo majoritariamente em bovinos. Especificamente em Angra dos Reis, foram confirmados quatro casos entre 2021 e 2023, reforçando a necessidade de o poder público manter a oferta gratuita de vacinas e soros antirrábicos, garantindo a segurança da população que vive ou frequenta áreas de mata preservada.