A Netflix caminha para consolidar sua hegemonia no mercado de streaming da América Latina, projetando um domínio financeiro que supera significativamente sua participação em número de usuários. Segundo dados da consultoria Omdia, apresentados durante a feira audiovisual Mipcom, em Cannes, a gigante americana deve concentrar quase metade de toda a receita gerada por assinaturas de vídeo online na região até 2026.

Os números revelam uma eficiência operacional robusta. Enquanto a plataforma deve deter cerca de 63,8 milhões de contratos — o que equivale a um terço do total de 190,7 milhões de assinaturas previstas para o mercado latino-americano —, sua fatia no faturamento deve beirar os 50%. Essa disparidade demonstra a capacidade da empresa em monetizar sua base de clientes de forma mais agressiva que a concorrência, utilizando estratégias como a diversificação de planos e a inserção de publicidade para maximizar lucros.

No panorama geral, o setor de mídia e entretenimento na América Latina deve movimentar US$ 62 bilhões em 2026. Desse total, o vídeo online já desponta como o grande motor financeiro, respondendo por US$ 35 bilhões, deixando a televisão tradicional com uma fatia consideravelmente menor, estimada em US$ 16 bilhões.

A tendência de crescimento é sólida, mas enfrenta barreiras estruturais. A projeção indica que o volume de assinaturas digitais na região subirá para 208,7 milhões em 2027, podendo chegar a 243,5 milhões em 2031. Para a Netflix, o horizonte é de expansão contínua, saltando dos 63,8 milhões de assinantes em 2026 para 73,7 milhões cinco anos depois. O sucesso dessa trajetória está atrelado à oferta de planos mais acessíveis com anúncios, atraindo o consumidor que busca economia sem abrir mão do conteúdo.

Entretanto, o avanço do capitalismo digital na região ainda esbarra no déficit de infraestrutura. Apenas 53% das residências latino-americanas possuem acesso à banda larga, o que mantém a televisão convencional como um pilar de audiência, presente em 91% dos lares. Enquanto o streaming atinge 35% das casas, a TV tradicional ainda sobrevive como a principal via de acesso à informação e entretenimento para as classes menos conectadas, evidenciando o abismo tecnológico que as empresas do setor precisam superar.