É apenas força de expressão, uma vez que nossa crença seja num único Deus, trino e todo-poderoso, criador dos céus e da Terra. Porém, serve bem como ilustração para o atual momento que vivemos no país em relação à mais alta corte da justiça.

Houve um tempo em que os juízes da mais alta corte falavam estritamente nos autos. Hoje, eles preferem os microfones de fóruns em Lisboa, as notificações do X — quando não estão bloqueadas por canetada própria — e, ocasionalmente, a redação das próprias leis que deveriam apenas interpretar.

> A atual crise do Supremo Tribunal Federal não é um raio em céu azul; é o resultado natural de anos de um ativismo judicial que transformou o plenário da Praça dos Três Poderes em uma mistura peculiar de parlamento sem voto e assembleia moral da República.

Para o cidadão comum, aquele que acorda cedo, paga boletos inacreditáveis e ainda tenta entender por que o leite subiu de preço, a sensação é de pura perplexidade. Afinal, a tripartição dos poderes concebida por Montesquieu virou uma sugestão meramente ilustrativa no Brasil. Se o Congresso Nacional debate, protela ou decide não aprovar determinado tema — exercendo a prerrogativa constitucional de quem recebeu votos nas urnas —, o tribunal não hesita: senta na cadeira legislativa, dita prazos, cria tipos penais e avisa que a omissão legislativa foi sanada pela "vontade suprema" de suas togas.

A tensão escalou para além do aceitável institucional. Entre inquéritos intermináveis que parecem ter sido redigidos sem início, meio ou fim, e ordens monocráticas que congelam o Orçamento da União em um piscar de olhos, o STF conseguiu a proeza de unificar desde liberais céticos até conservadores convictos em uma mesma constatação: o equilíbrio federativo virou peça de museu.

Quando o mesmo órgão investiga, acusa, julga e impõe a execução da pena, a tradicional balança da Justiça deixa de simbolizar a equidade para lembrar mais um martelo bem pesado batendo sobre quem ousar levantar o dedo.

A crise atual é, acima de tudo, de credibilidade. Parece não haver mais segurança jurídica, sobretudo quando a interpretação da Carta Magna muda conforme o vento político ou o humor da turma de julgamento.

O brasileiro não quer um tribunal que funcione como tutor iluminado de suas escolhas morais ou fiscais; quer apenas juízes discretos, fiéis ao texto constitucional e conscientes de seus próprios limites.

Enquanto os magistrados insistirem em agir como deuses da salvação nacional, continuarão colhendo o que qualquer excesso de vaidade produz: o descontentamento ruidoso de um país cansado de ser governado por quem nunca precisou de um único voto para chegar lá.