A psicologia humana muitas vezes nos confronta com situações inexplicáveis. Anos atrás, vivenciei de perto o drama de uma amiga próxima presa em um relacionamento abusivo. Mesmo após agressões físicas e humilhações públicas, e apesar de todo o apoio jurídico e emocional oferecido para que ela rompesse aquele ciclo, ela optou por retornar ao agressor repetidas vezes. A experiência me trouxe um ensinamento que ecoa o que aprendi no Exército: é quase impossível salvar quem não deseja ser salvo.

O Brasil parece estar mergulhado em um fenômeno semelhante. Observamos uma parcela considerável da população, especialmente em regiões onde os indicadores sociais e econômicos são alarmantes, demonstrando uma fidelidade inabalável a lideranças que perpetuam sua condição de escassez.

Existe uma espécie de 'nostalgia do fracasso', onde o erro é aplaudido e a miséria é romantizada. É a defesa organizada de um cenário marcado pela ausência de saneamento, pela alfabetização precária e pela insegurança que tira vidas diariamente.

A recondução do atual presidente ao poder não representa apenas uma alternância política comum, mas a consolidação de um sistema que se retroalimenta. Significa a manutenção de um modelo econômico fundamentado no gasto desenfreado e no fracasso previsível, além do fortalecimento de um ecossistema jurídico e institucional que parece trabalhar em favor do próprio mecanismo de poder. É a vitória de uma narrativa que recebe o aval até mesmo de dentro do sistema carcerário.

O grande desafio reside em como explicar a alguém, habituado a migalhas estatais, que a verdadeira liberdade nasce da prosperidade e da independência. O assistencialismo, utilizado como ferramenta política, funciona como os presentes dados por um agressor após a violência: servem para manter a vítima dependente e grata pelo pouco que recebe. O povo foi condicionado a acreditar que depender do Estado para o básico é o ápice da justiça social, enquanto, na verdade, é o cerceamento de seu potencial de crescimento.

É árduo o trabalho de convencer uma nação viciada em cativeiro de que o ar da liberdade é preferível. Muitos brasileiros aprenderam a amar suas correntes, contentando-se com o mínimo enquanto o país é conduzido por mãos que historicamente o impediram de prosperar. O Brasil enfrenta hoje o risco de um suicídio coletivo institucional, onde o vício na miséria e na dependência cega a visão de um futuro autossuficiente e digno.