O mundo ingressou em um território de instabilidade climática severa com o fortalecimento do El Niño, que ameaça ser o mais intenso registrado em mais de sete décadas. Um alerta emitido pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica que o fenômeno pode estender sua influência até fevereiro de 2027, elevando as temperaturas globais a patamares inéditos.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu a situação como a entrada em 'águas desconhecidas'. Segundo o dirigente, a escala do fenômeno atual é gigantesca e, combinada ao aquecimento global causado pela atividade humana, deve potencializar desastres naturais em diversas latitudes.
No cenário brasileiro, o El Niño projeta impactos distintos: enquanto o Sul deve enfrentar chuvas torrenciais e riscos de enchentes, as regiões Norte e Nordeste tendem a sofrer com secas prolongadas e aumento de queimadas. No Sudeste e Centro-Oeste, a previsão aponta para um calor atípico e índices críticos de umidade.
A intensidade do fenômeno é medida pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Dados recentes mostram que a temperatura da superfície do mar está 2°C acima da média, o que já o classifica como 'muito forte'. Projeções indicam que esse desvio pode chegar a 4°C, superando todos os registros históricos desde 1950. Nas camadas subsuperficiais, o aquecimento é ainda mais drástico, atingindo 8°C acima do normal em pontos específicos.
As consequências econômicas e sociais já começam a aparecer. No Canal do Panamá, a escassez de chuvas forçou uma redução de 10% no tráfego de navios, impactando o comércio marítimo global. Na Indonésia, incêndios florestais massivos cobrem cidades com fumaça tóxica, enquanto a China se prepara para uma temporada recorde de tufões após eventos letais em julho e agosto.
Na Austrália, a preocupação recai sobre o ecossistema marinho. Embora a Grande Barreira de Corais possa ter um breve alívio, o sul do país enfrenta ondas de calor oceânicas que devastam a fauna local, causando mortandade de peixes e afetando a cadeia alimentar de pinguins.
Especialistas reforçam que o El Niño não atua de forma isolada. Países como Peru e Equador, além do Brasil, lidam com vulnerabilidades estruturais, como habitações em áreas de risco e sistemas de saúde precários, que amplificam a letalidade de deslizamentos e inundações. A OMM destaca que a preparação e os sistemas de alerta precoce são as principais ferramentas para tentar mitigar a perda de vidas diante de um evento climático de proporções sem precedentes.

