A Venezuela tornou-se o palco central de uma nova disputa de poder entre Donald Trump e Xi Jinping. Ao avançar sobre as gigantescas reservas de petróleo do país sul-americano, a Casa Branca tenta minar a influência da China e de outros rivais, como a Rússia, no que Washington define como um esforço para restabelecer a supremacia americana no Hemisfério Ocidental.

O governo Trump já detalhou planos para controlar mais de 65 bilhões de barris de petróleo bruto venezuelano. A estratégia, no entanto, vai além da extração física: os Estados Unidos pretendem reestruturar a dívida externa da Venezuela de forma que Pequim perca o acesso às receitas da nova produção. Chris Wright, secretário de Energia dos EUA, afirmou categoricamente que a China não terá direitos sobre os ganhos gerados pelos novos poços, cortando uma via crucial para o pagamento de bilhões de dólares devidos a bancos chineses.

Essa ofensiva é amparada pela chamada 'Doutrina Donroe', termo usado internamente para descrever a política de Segurança Nacional que autoriza os EUA a impedirem potências rivais de controlar ativos estratégicos na região. A ocupação de campos petrolíferos antes operados ou financiados por chineses é vista por Washington como uma necessidade geopolítica imediata.

Para analistas internacionais, a manobra cria um precedente de 'exclusão coagida'. Embora Pequim tenha reduzido sua exposição econômica na Venezuela nos últimos anos, o movimento americano é interpretado como um sinal de que os EUA estão dispostos a usar sua força para impor 'linhas vermelhas' em relações comerciais de vizinhos sul-americanos com a China.

A reação oficial do governo chinês tem sido cautelosa, defendendo que seus interesses na Venezuela são protegidos pelo direito internacional e não dizem respeito a terceiros. O momento é delicado, já que ocorre às vésperas de uma visita de Estado de Xi Jinping aos EUA, onde se busca evitar uma escalada de conflitos, apesar das tensões crescentes em temas que vão de comércio a sanções contra o Irã.

Embora o impacto direto sobre a produção de energia da China seja limitado — o petróleo venezuelano representou apenas 4% de suas importações em 2025 —, o prejuízo financeiro é substancial. Estima-se que a dívida de Caracas com Pequim ainda some pelo menos US$ 10 bilhões, um resquício dos mais de US$ 60 bilhões em empréstimos concedidos durante a era de Hugo Chávez.

O setor privado chinês também sente o golpe. Refinarias independentes, especialmente na província de Shandong, dependiam do petróleo pesado venezuelano para produzir asfalto. Com o bloqueio das cargas para a China sob a nova administração dos ativos controlada pelos EUA, os preços de asfalto no mercado chinês começaram a subir, pressionando a economia interna de Pequim.

A disputa na Venezuela reafirma que a América do Sul continua sendo uma zona de atrito inevitável entre as duas maiores potências do globo, onde a energia é utilizada tanto como recurso econômico quanto como arma política.