A relação de simbiose política estabelecida entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atingiu seu ápice após o pleito de 2022, tornou-se um passivo estratégico para o Palácio do Planalto. Com o avanço de investigações sobre as conexões de Moraes com o sistema financeiro e o Banco Master, a equipe de campanha petista já trabalha para construir um distanciamento tático do magistrado, temendo o desgaste eleitoral.

IMAGEM: GAZETA DO POVO - Proximidade entre Lula e Moraes é evidenciada por diversos fatos recentes. (Foto: Antonio Augusto/STF / Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil / Ricardo Stuckert/PR / Luiz Silveira/STF)

Embora Lula tenha classificado publicamente a atuação de Moraes como um "trabalho extraordinário" para garantir a manutenção do poder após o 8 de Janeiro, os estrategistas do governo monitoram com cautela o avanço da crise. A associação direta com um ministro que personifica o endurecimento penal contra a oposição e o monitoramento das redes sociais passou a ser vista como um flanco aberto para críticas sobre a independência entre os Poderes.

Ao longo do mandato, a aliança foi explícita. Moraes atuou como um facilitador político para o Planalto, chegando a intermediar conversas travadas entre Lula e o senador Davi Alcolumbre (União-AP). Em contrapartida, o governo brasileiro empenhou capital diplomático para blindar o ministro no exterior, intercedendo junto à administração de Donald Trump para a retirada de sanções impostas pelos Estados Unidos contra Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, sob a Lei Magnitsky.

O cerne da crise atual reside no julgamento interrompido no STF sobre a possível investigação de Moraes por seus vínculos com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Um pedido de vista do ministro Flávio Dino, aliado de primeira hora do governo, empurrou a definição do caso para o período pós-eleitoral, garantindo uma sobrevida ao magistrado, mas mantendo a nuvem de suspeição sobre o tribunal.

Para mitigar os danos, a narrativa governista agora tenta revisitar o passado de Moraes, ressaltando que sua indicação ao STF partiu de Michel Temer em 2017 e que o magistrado já ocupou cargos em gestões do PSDB e do MDB. O objetivo é desvincular a imagem de \"aliado ideológico\" e tratar a proximidade recente apenas como uma convergência circunstancial em defesa do sistema institucional.

Eu acho que o Alexandre de Moraes prestou dois grandes serviços à democracia brasileira. Ele foi presidente do TSE na eleição que eu ganhei e ele sabe, o Brasil sabe, a tentativa que o Bolsonaro fez para destruir a credibilidade da urna brasileira.

Apesar dos elogios de Lula proferidos nesta semana, o tom nos bastidores da campanha é de retração. A ordem é evitar que o destino político do governo fique indissociavelmente atrelado ao futuro jurídico de Alexandre de Moraes, especialmente diante da volatilidade das denúncias que agora atingem o gabinete do ministro.