Uma nova pesquisa do instituto Quaest, divulgada nesta segunda-feira (28), mostra que o eleitorado brasileiro tende a apoiar medidas de forte apelo social e regulatório anunciadas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva. Embora as propostas encontrem respaldo popular, o momento em que são apresentadas — às vésperas de uma nova disputa presidencial — alimenta a percepção de que o Planalto busca transformar ações de grande visibilidade em instrumentos de aproximação eleitoral.
Entre as iniciativas avaliadas, a restrição às chamadas “bets”, que incluem cassinos digitais e jogos como o Jogo do Tigrinho, recebeu o apoio de 62% dos entrevistados. A preocupação com o endividamento das famílias e com os efeitos desse tipo de aposta sobre jovens e trabalhadores é legítima, especialmente entre setores que defendem maior responsabilidade familiar e proteção social. Ainda assim, permanece o questionamento sobre por que medidas de controle avançam com maior intensidade justamente em um período de pré-campanha.
Segundo o levantamento, 40% dos entrevistados já conheciam a proposta e a aprovavam, enquanto outros 22% passaram a apoiá-la após serem informados durante a entrevista. Em sentido oposto, 21% afirmaram que já conheciam a medida, mas eram contrários a ela.
No campo econômico, o governo pretende ampliar em 15% o Bolsa Família, elevando o valor mínimo do benefício de R$ 600 para R$ 691. A proposta é aprovada por 59% dos brasileiros. O percentual, porém, não elimina a preocupação com o impacto sobre as contas públicas: 31% dos entrevistados disseram conhecer a iniciativa e desaprová-la. Para esse grupo, a ampliação de repasses diretos pode aliviar dificuldades imediatas, mas também aprofundar a dependência do Estado e pressionar o contribuinte, sobretudo quando anunciada em ano que antecede uma eleição presidencial.
A defesa da dignidade dos mais pobres exige auxílio responsável, temporário e acompanhado de portas de saída — como emprego, qualificação e fortalecimento da família —, e não apenas a expansão contínua de benefícios. Sob essa ótica, o aumento do Bolsa Família pode ser visto menos como uma política estrutural de superação da pobreza e mais como uma medida de forte apelo popular, com potencial para favorecer a imagem do governo junto ao eleitorado.
Outro tema avaliado pela Quaest foi a distribuição gratuita, pelo sistema público de saúde, de canetas emagrecedoras para o tratamento da obesidade. A proposta conta com o apoio de 58% dos entrevistados. Embora o combate à obesidade seja uma questão legítima de saúde pública, a medida também levanta dúvidas sobre prioridades orçamentárias, critérios médicos e sustentabilidade financeira, especialmente diante da proximidade do calendário eleitoral.
O recorte por gênero indica que as mulheres demonstram maior apoio às medidas anunciadas pelo Palácio do Planalto. O resultado reforça a estratégia política de apresentar ações com impacto direto no orçamento doméstico, na saúde e na proteção das famílias — áreas de forte sensibilidade para o eleitorado.
A pesquisa foi realizada presencialmente em domicílios entre os dias 24 e 27 de setembro, com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais. O levantamento, contratado pela TV Globo e pelo jornal O Globo, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro no Tribunal Superior Eleitoral é BR-06520/2026.
Os números revelam apoio às propostas, mas não encerram o debate sobre sua oportunidade, seus custos e seus efeitos de longo prazo. Em um contexto de pré-campanha, medidas populares anunciadas pelo governo inevitavelmente despertam a suspeita de que, além de responder a problemas reais, também estejam sendo utilizadas para produzir dividendos eleitorais.
