Rio de Janeiro enfrenta uma escalada silenciosa e persistente da população em situação de rua. No censo municipal mais recente, realizado em 2024 e divulgado em 2026, a capital registrou 8.195 pessoas vivendo nas ruas — alta de 4,2% em relação ao levantamento anterior, de 2022. No estado, o Cadastro Único contabilizava 21.025 pessoas nessa condição em dezembro de 2022, enquanto uma estimativa da UFMG, com dados de 2025, projetou 23.431 pessoas em situação de rua fluminense. Em 2024, o país chegou a 365.822 pessoas nessa situação, segundo o mesmo levantamento.DW1

O retrato social ajuda a explicar por que o problema se agrava. No município do Rio, 82% da população em situação de rua é formada por homens, 83% se autodeclaram pretos ou pardos e mais de 70% têm entre 18 e 49 anos. Entre os principais fatores que levaram essas pessoas às ruas, aparecem conflitos familiares (36%) e alcoolismo ou uso de drogas (23%). Também chama atenção a insegurança alimentar: 45% dependem de doações para comer, e mais de 30% relataram ter passado um dia inteiro sem se alimentar na semana anterior.

A leitura desses números sugere uma crise que não se resume à falta de abrigo. Ela envolve desemprego, ruptura familiar, dependência química, pobreza extrema e dificuldade de acesso regular a comida, saúde e documentação. Na prática, isso empurra a população mais vulnerável para uma rotina de sobrevivência marcada por filas, doações e improviso.

Nesse vazio, igrejas e organizações religiosas ampliam ações de apoio social em diferentes pontos do estado. Em iniciativas recentes, projetos ligados a instituições religiosas distribuíram roupas, cobertores, alimentos e até remédios, além de oferecer serviços como corte de cabelo e aferição de pressão arterial. Em Petrópolis, por exemplo, uma ação reuniu mais de 30 voluntários para arrecadar itens de doação e atender pessoas em situação de rua. Em Duque de Caxias, outra mobilização levou quentinhas, água e suco a centenas de pessoas, mostrando como a rede solidária tem assumido parte do atendimento imediato às necessidades básicas.

No centro do Rio, a cena se repete em projetos de alimentação que formam filas diárias de pessoas em busca de almoço gratuito. Em um desses pontos, voluntários relatam que muitos chegam sem ter comido e dependem integralmente da ajuda de entidades e igrejas para atravessar o dia. Em depoimentos publicados em reportagens sobre essas ações, moradores de rua afirmam que “às vezes algumas igrejas também dão” comida, reforçando o papel dessas iniciativas na linha de frente da assistência.

Apesar da atuação de voluntários, o avanço do problema expõe a distância entre a demanda crescente e a resposta do poder público. Sem políticas consistentes de moradia, saúde mental, reinserção social e segurança alimentar, a tendência é de que a população em situação de rua siga crescendo no Rio, enquanto igrejas e projetos sociais continuam ocupando, na prática, uma função que deveria ser mais estruturada pelo Estado.

Fontes:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/no-rio-fila-da-fome-reune-pessoas-sem-teto-em-busca-de-comida
https://www.dw.com/pt-br/popula%C3%A7%C3%A3o-de-rua-teme-fome-durante-pandemia/a-52888260
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-03/no-rio-fila-da-fome-reune-pessoas-sem-teto-em-busca-de-comida
https://www.dw.com/pt-br/popula%C3%A7%C3%A3o-de-rua-teme-fome-durante-pandemia/a-52888260